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terça-feira, 3 de agosto de 2010

REPORTAGEM SOBRE MANOEL BERNARDINO

Manoel Bernardino: um herói socialista, espírita e vegetariano.

(FOTO: MANOEL BERNARDINO)



Conhecido primitivamente como Mata do Nascimento, nome que fazia referência ao seu primeiro povoador, o lavrador Manoel Nascimento – que chegou ao lugar por volta de 1915–, o município de Dom Pedro detém o privilégio de ter sido a terra adotada por um dos homens mais peculiares que já viveram no território maranhense: Manoel Bernardino de Oliveira.

Avesso a injustiças, o lavrador cearense Manoel, por sua história – às vezes recheada de lendas, criadas pelo imaginário popular – de combate aos poderosos, tornou-se um dos homens mais respeitados da Mata, onde se estabeleceu em 1916.


Sua principal luta era contra os fazendeiros endinheirados de Codó, que na época mandavam e desmandavam na região em que hoje situam-se os municípios de Dom Pedro, Presidente Dutra (antigo Curador), Santo Antonio dos Lopes, Governador Archer, Governador Eugênio Barros e Gonçalves Dias, entre outros.

Para enfrentar a prepotência dos coronéis e defender pessoas humildes das injustiças perpetradas por eles, não foram raras as vezes que Manoel se armou e cercou-se de homens que o veneravam, atitudes que atraíam a ira dos fazendeiros.

Chamado de “Lênin do Maranhão”, por sua identificação com as ideias socialistas pregadas na época pelos revolucionários russos – principalmente Vladimir Ilich Lênin –, Manoel Bernardino também era leitor das obras de Allan Kardec (pseudônimo do professor francês Hippolyte Léon Denizard Rivail, primeiro difusor da doutrina espírita).

Fuzilamentos na Mata – Os ideais revolucionários de Manoel Bernardino, sua liderança entre os lavradores humildes da Mata e sua oposição ostensiva ao governador maranhense de então, Urbano Santos, assustaram o poder dominante, que em 1921 enviou para a Mata do Nascimento um contingente de 600 homens, chefiados pelo tenente Antonio Henrique Dias.

O objetivo da ação era impor respeito pela força das armas. O tenente e seus homens chegaram à Mata em 5 de agosto de 1921. Não encontrando Manoel Bernardino – que havia se deslocado a Codó para buscar apoio político e militar –, fizeram dezenas de prisioneiros. Antes de deixar a Mata, “para dar o exemplo”, fuzilaram quatro lavradores: Adão, Francisco, Maurício e Avelino. O tenente e os militares que participaram da missão foram julgados e absolvidos.

Adesão à Coluna Prestes – Em 1925, Manoel Bernardino e os perto de duzentos homens que o seguiam se juntaram à Coluna Prestes. O movimento, liderado por Luís Carlos Prestes e Miguel Costa, percorreu o interior do Brasil e além fronteira, de 1925 a 1927, pregando o fim da República Velha, exigindo o voto secreto e defendendo o ensino público e a obrigatoriedade do ensino primário para toda população. No Maranhão, a Coluna chegou a ocupar 26 dos municípios então existentes.

A Coluna se dispersou em 1927 – o grupo chefiado por Prestes em Gaíba, na Bolívia, e o liderado por Miguel Costa em Libres, na Argentina (ambas cidades próximas à fronteira com o Brasil). O movimento não conseguiu fazer a “revolução” que desejava, mas sua ação ajudou a abalar ainda mais o prestígio da República Velha e a preparar a Revolução de 1930.

Projetou também a figura de Luís Carlos Prestes, o “Cavaleiro da Esperança”, que posteriormente entrou no Partido Comunista Brasileiro (PCB), tornando-se um mito.

Assim que abandonou a Coluna Prestes, em 1926, por achar que ela deveria permanecer no Maranhão, o que contrariava seu caráter itinerante, Manoel Bernardino se estabeleceu por algum tempo no Ceará, voltando ao Maranhão (Mata do Nascimento) em 1929. Então, além de socialista e espírita, também havia se tornado vegetariano – o que era considerado uma excentricidade pelos sertanejos que o conheciam, acostumados a se alimentar, no dia a dia, de carne de gado, caprinos, suínos, aves e caça. Nem leite ele bebia. Dizia que o leite era o “sangue da vaca”.

Um anjo na Mata – Contam alguns que quando voltou à Mata do Nascimento, Manoel Bernardino também deixou cabelos e barba crescerem. Também confeccionou um par de asas e uma cruz.

Carregando a cruz e com as asas presas às costas, Manoel saía perambulando pelos lugarejos próximos, penitenciando-se pelos males que acreditava haver feito a algumas pessoas.

Manoel Bernardino morreu em 17 de janeiro de 1942, aos 60 anos, numa casa como as que abrigam ainda hoje muitos maranhenses – de taipa, telhado de palha e chão batido. Foi enterrado como sempre pedira: sem caixão, apenas coberto por um lençol.
fonte: Jornal Pequeno/São Luis
link:

http://www.jornalpequeno.com.br/2010/8/1/manoel-bernardino-um-heroi-socialista-espirita-e-vegetariano-126539.htm

segunda-feira, 7 de maio de 2007

DOM PEDRO: A CIDADE QUE MANOEL BERNARDINO CRIOU!



HINO DE DOM PEDRO (INTERPRETAÇÃO)

Nasceste entre belezas naturais
Com teu resplendor tão relutante,
Sob um lindo céu de azul constante
E verdes matas de babaçuais

Teu povo em luta trouxe a ti a glória,
Empunhando a bandeira da Libertação
Com coragem e orgulho
Te proclamaram cidade do Maranhão

Dom Pedro, Dom Pedro, Dom Pedro,
Antiga Mata do Nascimento,
Tua história, tuas lutas, tuas glória,
O teu povo guarda sempre na memória

Dom Pedro, Dom Pedro, Dom Pedro,
Esperança de um grande povir,
Berço amado e varonil,
Do nosso Maranhão e do Brasil

A 1ª estrofe fala das belezas naturais que DOM PEDRO tinha quando ainda se chamava "Mata do Nascimento", inclusive as matas de BABAÇUAIS que têm na região.No começo, Dom Pedro era um distrito da cidade de CODÓ.
A 2ª estrofe fala da luta que tivemos para alcançar a liberdade de Codó e ser uma nova cidade no Maranhão.
A 3ª estrofe fala do primeiro nome da cidade, que era Mata do Nascimento, e que ninguém esquecerá sua história e suas glórias. Também o autor nessa estrofe deixa esperanças para um futuro melhor para a cidade




RESUMO SOBRE A HISTORIA DE DOM PEDRO




A progressista cidade de Dom Pedro, situada na Região de Presidente Dutra, com mais 14 municípios, que totalizamaquela região maranhense, possui uma área, segundo as mais atualizadas estatísticas do IBGE de 369,964 km², habitados por 23.100 habitantes, com uma densidade demográfica de 62,44 habitantes por quilômetros quadrados.

Seu primeiro nome foi Mata do Nascimento, em homenagem ao seu primeiro habitante, quando ainda fazia parte do território codoense, ter sido Manoel Nascimento por volta de 1915. Através da Lei nº 815, de 9 de dezembro de 1952 foi desmembrada do município de Codó e se instalou solenemente como cidade em 1º de janeiro de 1953.

Dentre os capítulos históricos do valoroso povo de Dom Pedro é marcado um dos mais dolorosos atos de covardia e abuso de poder, acontecidos em seu território, que foi o famoso movimento de Manuel Bernardino de 1922, quando o citado lavrador liderando um considerável grupo de seus companheiros camponeses, dirigiu-se à chefia da Administração Municipal, em Codó, e pleitearam a criação de um colégio para os seus filhos, os quais não tinham opções de estudar. Apesar de ordeiramente terem feito por demais justo pleito. Não foram, porém, compreendidos. Para enorme surpresa e decepção de toda população da antiga Mata do Nascimento, foram-lhes atribuídas, unicamente, censuras por demais violentas e ameaças sinistras.
Com esta inesperada reação das autoridades municipais codoenses os lavradores reagiram e passaram a protestar, mesmo, ofendidos, agiram sem violência. Entretanto, os dirigentes municipais solicitaram, urgentemente, ao Governo do Estado uma força volante da Polícia Militar para acabar com tal movimento e imediatamente o Governo mandou a tal tropa sob o comando do tenente Henrique Dias, com ordens por demais violentas.
O comandante executou ao pé da letra o que lhe foi determinado fazer no Centro da Mata do Nascimento.
Foi uma verdadeira carnificina, a força volante fuzilou sem dó ou piedade centenas de indefesos lavradores o sangue de inocentes camponeses serviu para alicerçar a independência, emancipação da sua urbe. Mesmo assim, somente em 1928, foi criada a primeira escola municipal, tendo a gleba a sua primeiríssima professora, que foi a professora Guilhermina Chaves. Em 1931, a gleba da Mata do Nascimento foi elevada à categoria de Vila, recebendo o nome de Vila Pedro II. Em 1943, por Decreto-lei federal foi proibida a existência de dois topônimos iguais aplicados àquela Vila, devido que no vizinho Estado do Piauí, existia uma cidade com o nome de Pedro II e ser mais antiga foi determinado que a Vila mudasse de nome.

Ficou na alçada do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, a incumbência de efetuar a devida troca de nominação, que acabou a referida Casa de Cultura maranhense, sugerido e os poderes competentes, oficializando o nome da Vila como Dom Pedro, denominação, que agradou a todos os seus habitantes e foi mantida a homenagem ao imperador Pedro II.


IMPERADOR DO BRASIL - DOM PEDRO II

Em 1951, o deputado do Partido Republicano, Manoel de Oliveira Gomes, aliado ao Sr. Alcebíades de Melo Lima, líder local e com o apoio maciço da população da Vila iniciaram uma forte luta para conseguirem em 1952, a Assembléia Legislativa do Estado aprovar a lei acima citada, que transformou a Vila em município e o emancipava dos domínios codoenses.
Em 1º de janeiro de 1953 foi nomeado e empossado o seu primeiro Prefeito, Sr. Lídio Brito. Para em 31 de janeiro de 1955, ser eleito o seu primeiro Prefeito, através da escolha democrática dentre seus habitantes, que foi o Sr. Ananias de Morais Costa. Nesta mesma data, foi instalada a sua Câmara Municipal composta dos seus primeiros nove vereadores e sua Mesa Diretora foi assim constituída: Presidente – Alcebíades de Melo Lima; Primeiro Secretário – Manoel Cabral Pereira e Segundo Secretário – Jorge Fernandes da Silva.


O seu principal acidente geográfico é o rio Codozinho, com pequena profundidade não é adaptável para navegação. A sua riqueza natural é invejável com um solo por demais fértil e com imensos babaçuais. A sua população é grande parte católica, sendo a sua Santa Padroeira Nossa Senhora de Nazaré, cujo festejo é realizado anualmente de 31 de agosto a 8 de setembro, outra festa religiosa que tem destaque na cidade é de São Francisco de Assis. Sua Cultura Popular é forte, onde reluz a Dança da Mangaba, o Bumba-Boi, o Tambor-de-Mina e o Tambor-de-Crioula. No seu artesanato o Babaçu é o maior destaque, seguido da Palha e da Taboca.
Em relação a sua culinária, é diversificada com o arroz predominando, acompanhado de carne de boi, porco, caça, galinha, com dois marcantes pratos que o capão ao molho pardo e a galinha de parida. A Esperança de Vida dos dom-pedrenses, de acordo com o IPEA e a Fundação João Pinheiro é de 61,46 anos. Seguindo estas mesmas fontes, conforme o estudo do Índice de Desenvolvimento Humano dos Municípios Brasileiros: a Taxa de alfabetização de adultos = 69,38%; Taxa bruta de freqüência escolar = 74,81%; Renda per capita = R$ 126,85; Índice de desenvolvimento Humano Municipal – IDH-M = 0,634. Esta classificação implica que a cidade de Dom Pedro é o 25º em relação aos 217 municípios maranhenses e o 4052º em comparação com os 5.561 municípios brasileiros.

O seu povo é acolhedor, hospitaleiro, tornando-se o homem dom-pedrense o maior atrativo turístico-cultural da sua cidade, aonde mora a paz e as raízes tradicionais da pacata cidadezinha da Zona Rural maranhense, onde ainda se cultiva o leite mugido, o beiju e um café torrado no caldeirão e socado num pilão caseiro. Coisas de Dom Pedro, uma das belas caras do Brasil-Maranhão!

Data de Publicação: 3 de dezembro de 2004. Jornal Pequeno - São Luis - MA
TEXTO: José Ribamar Sousa dos Reis *Membro do IHG

OS FUZILAMENTOS





(Fotos de Dom Pedro - MA)


No dia 5, ao meio dia, as tropas chegam à Matta “sem disparar um tiro”, visto não haver revolta, e começam as prisões e interrogatórios para descobrir o paradeiro de Bernardino e de seus “capangas”.
Às prisões seguem os fuzilamentos, sob ordens do Tenente Antonio Henrique Dias, dos “cangaçeiros” mais próximos de Bernardino.

No dia seguinte chegam Sebastião Gomes e seu pessoal, mais ou menos 200 homens e alguns “cangaceiros” presos, e José Pedra com mais 28 homens e alguns prisioneiros.

Segundo S. Gomes havia mais ou menos 50 prisioneiros para serem fuzilados não sendo pela intervenção sua, de José Pedra e do Tenente Taurino Lobão Lemos que convencem Dias a cessar a carnificina.

Os boatos se espalham e o Desembargador Deoclides Mourão manda um telegrama a Urbano Santos dando notícia de cem homens fuzilados, cadáveres boiando nos açudes e corpos servindo de pasto aos urubus, atrocidades indizíveis cometidas pelo Tenente Dias havendo discordância quanto ao número, não quanto ao autor.

Urbano contata o Dr. Walfredo Lira, opinião situacionista, que interroga Sebastião Gomes e confirma ao Presidente do Estado os fuzilamentos e a ação do Subdelegado para libertar outros condenados à morte.


Em depoimentos, inclusive de Maria Pereira Ramos, vulgo Maria Paca, é atribuído a Sebastião Gomes o mérito de ter salvado prisioneiros da morte mas, uma fonte oral na qual o entrevistado não autorizou sua identificação, diz ter ouvido do próprio Sebastião Gomes que a intervenção somente seria feita se os salvos se comprometessem a matar Bernardino quando este voltasse à Matta.
Diante das notícias bombásticas, que já chegaram aos jornais, Urbano Santos envia o Major Bello, que já estava em São Luís, voltar a Codó e proceder inquérito afim de verificar a “verdade”.


Bello investiga, interroga e chega à conclusão de que foram fuziladas quatro pessoas, na beira da estrada que leva à Codó, a mando do Tenente Antonio Henrique Dias.
Em depoimento, quando indagado sobre as acusações de fuzilamentos confirmadas pelo juiz e pelo Subdelegado, Dias nega ter ordenado qualquer fuzilamento ou maus-tratos aos prisioneiros e afirma ser inimigo de Sebastião Gomes e de Walfredo Lira desde 1919 quando era Delegado em Barra do Corda e um amigo de seus acusadores cometera um crime bárbaro de roubo e assassinatos e eles vieram pedir-lhe para tirar do processo o nome dele ao que Dias lhes disse que se quisessem livrá-lo que constituíssem um advogado.

Desde então tornaram-se inimigos e que, se na Matta fora cometido algum crime certamente foi por homens de Gomes que armados e bêbados atiravam a esmo.
Quem objetivamente denuncia os fuzilamentos são as praças pois o Tenente Taurino, “por espírito de coleguismo”, oculta os assassinatos do seu primeiro depoimento (sendo por essa omissão sentenciado a prisão disciplinar de quinze dias) e, embora fosse o Comandante da expedição, só tivera conhecimento do fato após a consumação visto que não tendo encontrado resistência na Matta foi à casa do seu amigo Antonio Pires e em sua ausência foram cometidos os crimes; já as praças admitem que Taurino sabia de tudo que estava acontecendo.


Há muitas contradições nos depoimentos de todos os militares quanto a um ataque que a força teria sofrido na noite do dia 5 de agosto: alguns dizem que os tiros foram respondidos pelo flanco esquerdo, outros o direito, outros por todos os flancos e outros que nem ataque houve.

Mas isto não explicaria os fuzilamentos pois os assassinados eram prisioneiros que foram levados à estrada que leva ao Codó, sob pretexto de serem levados presos àquela cidade, sem nenhuma possibilidade de reação.
Comprovado o crime, Dias é enviado a São Luís e preso no quartel da polícia militar onde é feito novo inquérito.

BERNARDINO SAI DA CLANDESTINIDADE

Manoel Bernardino, que fora ao Codó tendo lá chegado no dia 7 de agosto, mostra não haver sedição alguma e sim campanha política, pede uma audiência com o Dr. Urbano Santos e segue para São Luís no dia 12 do mesmo mês.
Na capital, Bernardino conferencia com Urbano e concede entrevista ao Diário de São Luís e à Pacotilha mostrando, aos jornais e ao povo, sua elevada cultura.
fotos de Dom Pedro - MA

Em Coda o Delegado Carlos Bayma faz inquérito e conclui que “Manoel Bernardino queria impedir eleições, saquear e roubar. Moradores pedem não deixar Manoel Bernardino voltar à Matta”. Os fatos desmentem, posteriormente, esta conclusão.
Ao Diário de São Luís Bernardino explica seus conflitos com Sebastião Gomes e José Lopes Pedra Sobrinho, sua campanha política, sua carta a Euclydes Maranhão e a conferência com Urbano Santos na qual o Presidente fica “convencido de que ele Manoel Bernardino era vítima das perseguições. Que quanto a ser socialista que ele Urbano Santos também o era e que a vitória do socialismo não estaria longe [...]”

Na Pacotilha a entrevista segue a mesma linha (desafetos, campanha política, boatos) e este periódico emite a seguinte opinião sobre Bernardino:
[...] longe de ser algum chefe de rebeldia, é um homem amigo da legalidade, apenas um pouco transviado por espiritismo, de mistura com vagas influências de leituras de algum livro socialista [...] é um homem de boa índole, lá com suas caraminholas socialistas e espíritas.
Embora faça elogios à personalidade de Bernardino, o jornal faz questão de ridicularizar as doutrinas das quais ele é adepto e ligá-lo aos políticos de Codó com no questionamento publicado no dia seguinte: “Será Manoel Bernardino uma simples vítima das leituras mal assimiladas de Tolstoi e Guerra Junqueiro e revistas de espiritismo ou um agente da politicagem que se oculta sob aquela capa?”
As tristes notícias se espalham pelo Brasil

Vejamos alguns telegramas:
Rio, 19 A “Noite” com títulos garrafais – morticínio de cem irmãos brasileiros fuzilados no Maranhão, mas no Brasil o sangue das vítimas clama justiça- [...]
Rio 20 A “Gazeta” a atitude do Sr. Urbano Santos, esforçando-se para apurar gravíssima denúncia [...] é digna do seu passado político e revela a sua envergadura de homem público.
Belo Horizonte, 21 A opinião pública está alarmada com a notícia de morticínio no Maranhão.

O Tenente Dias, preso no quartel, admite os fuzilamentos e entrega uma declaração a Nascimento de Morais, redator do Diário de São Luís, em que diz apenas cumprira ordens do Sr. Urbano Santos para que:


Chegando à Matta espingardeasse um grupo de cangaceiros que ali existia chefiados por Manoel Bernardino. Por mais de uma vez em seu palácio o Sr. Dr. Presidente recomendou [...] que espingardeasse todos os bandidos custasse o que custasse e que contasse [...] com todo o apoio do governo;
[...] e de fato a força espingardeou quatro cangaceiros porque eu e o Tenente Taurino recebemos ordens do exm° Sr. Dr.
Presidente do Estado para isso fazer.

Essa declaração acusa diretamente o Presidente do Estado pelos fuzilamentos por ter dado ordens explícitas de matar “todos”os revoltosos.
Isso acirra ainda mais a campanha para Presidente da República, pois o candidato a Vice-Presidente da chapa situacionista é acusado de um crime bárbaro que já tomara as páginas dos jornais mais importantes do país. A oposição ataca.

Os desdobramentos tomam tal proporção que o Senador, e sucessor de Urbano, Godofredo Viana usa a tribuna para defender Urbano Santos, afirmando que “dos sessenta e quatro municípios [do Maranhão] apenas em sete existe força militar [...] [quanto à Matta] houve excessos positivamente selvagens executados pela força policial [mas as cem vítimas] foi apenas uma multiplicação feita pela mente incendiada da paixão partidária” .


O Oficial ainda declara está sendo coagido a retirar o que dissera assumindo os fuzilamentos que o Presidente o protegeria mas, ao invés disto, ele continua afirmando ter cumprido ordens, isto o leva a ficar incomunicável no quartel .
As denúncias levam o próprio Urbano a conceder entrevista à Pacotilha na qual diz que:


eles já sabiam o que iam fazer na Matta [?] que agissem conforme as circunstâncias aconselhassem [...] [quanto a Deoclides Mourão teria dito que] uma comissão militar da natureza da que iam desempenhar, não se olhava a posição nem a classe dos indivíduos envolvidos na desordem. A força somente podia considerar que tinha diante de si duas ordens de pessoas – os homens pacíficos e os desordeiros [...]

Essa entrevista não desmente totalmente as acusações de Dias, até as ratificam em alguns pontos, complicando ainda mais a situação do Presidente do Estado.


Em princípio de setembro de 1921 o Major Bello termina o inquérito chegando à conclusão de que foram fuzilados quatro indivíduos a mando do Tenente Antonio Henrique Dias. Mas antes da chegada deste oficial à Matta, o Sr. José Pedra aterrorizou a população dizendo que o Major iria sangrar os que falassem em assassinato espalhando ainda que “Manoel Bernardino estava preso e condenado a trinta anos de prisão, e que não voltaria mais à Matta.”. Quando o Major foi ao povoado foi José Pedra quem o “guiou” pela região.
Portanto a conclusão do inquérito não pode ter nenhum crédito de veracidade dado a coerção que as pessoas da Matta foram submetidas antes e durante a visita do inquiridor.


Em meados de setembro surgiram denúncias de terem sido praticados muitos saques na Matta e encontradas quatorze ossadas humanas levando a um novo inquérito, este feito pelo Delegado Geral do Estado Sr. João da Costa Gomes que partiu para a Matta no dia vinte e seis de setembro acompanhado, entre outros, de mais um acusado, o Sr. Sebastião Gomes de Golveia.


O Diário de São Luís diz que no terminal ferroviário de São Luís, Bernardino estava presente e bradou contra Sebastião Gomes:


-
Ali está, meus senhores o principal responsável pelos crimes da Matta, ali está o homem perigoso que persegue os pobres os pequenos, e no entanto a lei os protege!

Vê-se que a coragem de Bernardino beira a insensatez, desafiar e ofender em público uma autoridade policial dada a todo tipo de arbitrariedade em uma região em que ele “é” a lei e para onde o próprio Bernardino regressará, parece quase um suicídio.

O juiz de direito de Tutoia, Sr. Francisco Moreira (filho de Felippe Moreira), concede uma entrevista ao Diário de São Luís que o pergunta, entre outras, se Manoel Bernardino é mal visto na Matta (como disse o Delegado de Codó na conclusão de seu inquérito) ao que o juiz responde:
- Absolutamente. A maioria dos habitantes, que me procuraram na Matta, fala bem de Manoel Bernardino e lá o aguarda ainda ansiosamente. Manoel Bernardino é um tipo curioso, homem de muita atividade e pronto sempre a amparar os infelizes e perseguidos [...].

Quando o Dr. Costa Gomes chega em Codó, antes de partir para a Matta, encontra detido o Sr. José Lopes Pedra Sobrinho acusado de ocultar os cadáveres e ser cúmplice nos fuzilamentos fornecendo uma lista dos “cangaceiros” de Bernardino ao tenente Dias. Diante destas acusações o Delegado geral manda soltá-lo sob alegação de que a lista era apenas uma suspeita, os cadáveres já terem sido vistos por muitos e por não ter sido pego em flagrante.


Seguem para a Matta o Dr. Costa Gomes acompanhado de Sebastião Gomes, o cabo Pedro Ribeiro Onça (Pedro Onça) e outros. Em todos os povoados da região, por onde passam e inquerem o povo, há negativa de saques e confirmação de apenas quatro mortos.


Na Matta, Felippe Moreira diz ter mandado vários homens dar busca no mato em todas as direções e estes encontraram as quatorze ossadas mas estas não são humanas sendo de jumentos e cachorros, esta afirmação é confirmada pelo Desembargador Mourão.
Os quatro cadáveres dos fuzilados, mesmo tendo sido ocultados, foram encontrados e sepultados.


O Delegado geral diz ter mandado dar buscas no mato e no açude onde diziam ter cadáveres boiando nada sendo encontrado. Não foram confirmados saque, apenas pequenos furtos e, terminada a investigação o Dr. Costa Gomes faz uma audiência pública para tranqüilizar o povo. Por sugestão de Deoclides Mourão o governo envia ferramentas (facão, foice, enxada, machado) para os trabalhadores da Matta para compensar os furtos sofridos durante a invasão. Conclui-se o inquérito feito pelo Delegado Geral do Estado Dr. João da Costa Gomes.


De regresso à Matta, em 20 de outubro de 1921, Manoel Bernardino escreve uma carta ao Sr. Urbano Santos, com cópia ao Diário de São Luís, onde denuncia a inveracidade do inquérito feito pelo Dr. Costa Gomes pois antes de sua chegada os senhores Sebastião Gomes e Pedro Onça (ambos acompanharam o Delegado durante sua investigação) atemorizaram a população, dizendo que “não queriam saber de histórias pois se o governo ainda os mandasse aqui seria para acabar o resto do povo”, isto fez a população abandonar o povoado pois não tendo como se proteger, visto suas armas terem sido tomadas por Sebastião Gomes durante a ocupação, e estando todos sendo ameaçados por grupos armados (de Segastião Gomes, José Pedra, Raimundo Cardoso).

Diz ainda que:
Faltam dois homens que se achavam na Matta quando foi cercada pelas forças: Manoel Sansão e Francisco Velho, dos quais ninguém sabe o paradeiro. Os Srs. Pedra [José e o seu irmão] estão atemorizando o povo ignorante, dizendo que o Tenente Dias vem com duzentas praças atacar novamente a Matta.
A ilegitimidade das investigações é verificada em todos os inquéritos:


o primeiro, feito pelo Major Bello, foi acompanhado por um dos acusados, o Sr. José Lopes Pedra Sobrinho;

o segundo feito pelo Delegado de Codó, Sr. Carlos Bayma, concluiu que Bernardino queria saquear e roubar e o povo da Matta que não o queria de volta, mentiras;

o terceiro, feito pelo Delegado Geral do Estado, Dr. João da Costa Gomes, foi acompanhado por mais um dos acusados, Sebastião Gomes de Golveia.


Além disto tudo vale ressaltar a coerção sofrida pelo povo antes e durante as investigações.


Ambos concluem apenas quatro mortos, o Dr. Costa Gomes ainda apura um outro assassinato em um dos piquetes feitos por Sebastião Gomes mas, ajudado por Felippe Moreira, o crime é dado como falso. Em sua carta (a Urbano e ao Diário) Manoel Bernardino denuncia o desaparecimento de apenas duas pessoas o que nos leva a concluir que foram fuziladas, sob comando do Tenente Dias, apenas quatro pessoas com possibilidade de mais três mortos em piquetes de Sebastião Gomes ou José Pedra.

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UM ANJO VOLTA À MATTA


(açude Lourenção , "sangradouro"- Dom Pedro - MA)


A volta à Matta é um dos fatos mais curiosos de sua história, contam alguns entrevistados e o novelista Pedro Braga que, de Carutapera à Matta, Bernardino foi à pé, descalço, sozinho, “carregando uma cruz” e esmolando.

Chegando ao destino, deixa os cabelos e a barba crescerem, faz um par de “asas de anjo” e vai à casa das pessoas, que ele acreditava ter prejudicado, pedir perdão. Vive assim por mais ou menos um ano. Com estas asas ele vaga pela Matta e localidades vizinhas.

Rua Ferreira Goulart - Centro - Dom Pedro - MA


Foi com essa penitência que ele encontrou, certo dia em Codó, o comerciante Raimundo Freitas, que havia sido saqueado em 1925, ajoelha-se aos pés do comerciante e pede o perdão, que lhe é negado, ficando o “anjo” em prantos.

Praça do Mercado

Após esse período de penitência Manoel Bernardino volta a dedicar-se à lavoura, à religião (espírita) e à leitura. Torna-se vegetariano comendo apenas o que produz e vendendo o excedente na vila Pedro II (atual Dom Pedro, antiga Mata do Nascimento). Seu vegetarianismo é a tal ponto que passa a plantar amendoim para extrair o óleo evitando, assim, o consumo da banha de porco, que era o “óleo” usado na época.

Praça Texeira de Freitas

A partir daí sua vida se resume ao “labor e à leitura”. Defronte à sua casa construiu uma “casa de orações” e biblioteca na qual tinha vários livros de espiritismo, socialismo e literatura em geral. Continua sendo procurado por todos que querem ouvir suas palavras e/ou seus conselhos.
Por volta do mês de novembro de 1941, Bernardino escreveu uma carta ao seu sobrinho Eurípedes dando-lhe conselhos para continuar esforçando-se nos estudos e, se possível, ajudar à família.

Poder Judiciário: Fórum (av. Engº Rui Mesquita)

Assim continua até o dia 17 de janeiro de 1942 quando em sua casa, de taipa e coberta de palha, expia e “o ciclo se fecha”. Só fizera um pedido, para ser enterrado sem caixão, apenas coberto por um lençol.